(Review 346) - Cinzas na Neve

em 17 de abril de 2020

Título original: Between shades of gray
Autor: Ruta Sepetys
Editora: Arqueiro (Brasil) / Penguim Books (USA) / Maeva (Espanha)
Páginas: 240
Ano de Publicação: 2011 (EUA) / 2019 (Brasil)
Gênero: Histórico
Valoração: 
Goodreads / Amazon / Skoob / Saraiva / Cultura 


Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da história.
Lina Vilkas é uma lituana de 15 anos. cheia de sonhos. Dotada de um incrível talento artístico, ela se prepara para estudar artes na capital. No entanto, a noite de 14 de Junho de 1941 muda para sempre seus planos. Por toda a região do Báltico, a polícia secreta soviética está invadindo casas e deportando pessoas. Junto com a mãe e o irmão de 10 anos, Lina é jogada num trem, em condições desumanas, e levada para um gulag, na Sibéria. Lá, os deportados sofrem maus-tratos e trabalham arduamente para garantir uma ração ínfima de pão. Nada mais lhes resta, exceto o apoio mútuo e a esperança. E é isso que faz com que Lina insista em sua arte, usando seus desenhos para enviar mensagens codificadas ao pai, preso pelos soviéticos.
Cinzas na Neve conta a história de um povo que perdeu tudo, menos a dignidade, a esperança e o amor. Para construir os personagens de seu romance, Ruta Sepetys foi à Lituânia a fim de ouvir o relato de sobreviventes dos gulags durante o reinado de horror de Stalin.




Cinzas na Neve, da maravilhosa Ruta Sepetys é mais do que uma obra prima literária forte e contundente, o livro também é um testemunho realista, duro, brutal e comovente sobre o sofrimento (hoje esquecido) de milhares de sérvios, lituanos, letônios e eslovacos durante a ocupação dos soviéticos, liderados pelo temido Josef Stalin. 
Segundo a própria autora em sua Nota da Autora, se calcula que Stalin assassinou mais de vinte milhões de pessoas durante seu reinado de terror. Seu exército destruiu nações, vidas e ceifou a esperança de uma geração inteira de povos dos países bálticos. Cinzas na Neve é uma leitura necessária, esclarecedora, primordial, porque apresenta ao leitor uma realidade oculta nos livros de história, sobre uma face da Segunda Guerra Mundial que ficou relegada ao esquecimento. 

Lina Vilkas  tem apenas quinze anos, e muitos sonhos. Ela quer ir para a Escola de Artes, ser uma grande artista como Munch, seu grande ídolo. Ela vive uma vida cômoda na Lituânia. Uma existência prestes a mudar radicalmente.
A chegada do exército vermelho de Stalin desde o princípio provoca caos e racismo nas ruas lituanas. Muitas famílias tiveram que fugir, outras foram deportadas. Quando o NKVD (atual KGB) invade a casa de Lina, ela só consegue se perguntar o que sua família fez para estar na temida lista.
Levada em um vagão para animais, junto a outros como ela, Lina é enviada para diversos lugares da Rússia, lutando para sobreviver sob condições desumanas. Tendo como destino final a Sibéria, Lina e os seus terão que aprender a lutar pela vida com muito pouco, e conhecerão face a face o lado mais cruel dos tempos da guerra.

Minha opinião:

Esse livro me roubou lágrimas, e foram lágrimas diferentes da comoção que outros livros causam por terem estórias tocantes. Cinzas na neve é brutalmente realista. A narrativa delicada e direta de Ruta Sepetys consegue transportar o leitor para a fria Sibéria, para vivenciar ao lado de Lina toda a angústia que as pequenas nações vizinhas à Rússia tiveram que suportar quando Stalin decidiu invadir e anexar estas terras à União Soviética.
É muito duro ler sobre campos de trabalho forçados, pessoas morrendo à mingua, despojadas de seus bens e de seus direitos como seres humanos simplesmente pelo fato de serem diferentes do que os que estão no comando. 

A ambientação que Ruta faz, todo o cuidado na construção histórica e geográfica da estória, permite que a gente consiga praticamente ver e sentir o que aqueles personagens passam. A Sibéria fria, solitária e melancólica que para Lina e seus compatriotas se resumia a uma sentença de morte é ricamente descrita. As dificuldades de se sobreviver naquele ambiente complicado, os conflitos de estar em um grupo de pessoas de caráter e valores diferentes, a luta em se manter a dignidade e a vida quando tudo está contra aquele grupo, tudo isso é narrado por Ruta Sepetys com uma veracidade latente, e com um toque tão singelo e cru, que como num filme as imagens foram passando pela minha mente. Fica um nó na garganta e um vazio no peito acompanhar tantas injustiças, e saber que mais uma vez a humanidade errou com essas pessoas, condenando a estória deles ao esquecimento quase que total. É um orgulho e um alívio termos autores como Ruta Sepetys, que anos depois podem usar seu talento para denunciar a dor destas gerações anteriores.

Lina é tão real. Ela é uma adolescente, e tem sentimentos contraditórios, suas emoções estão a flor da pele e ela manifesta isso com uma sinceridade extrema, uma transparência cativante. Lina tem seus momentos de fúria, de ódio e de revolta. Ela está em uma situação atípica, e reage de acordo ao que se espera. Achei incrível como Ruta pode traçar a personalidade dessa protagonista permitindo que ao mesmo tempo em que carrega dor, carrega também um traço cativante de esperança.

Outro detalhe lindo foi o romance que a autora construíu dentro da trama. Lina e Andrius  são diferentes, mas de repente foram postos para encarar a mesma realidade. Cada um deles reage diferente ao que se espera, e no final a gente fica pensando se o amor deles irá sobreviver à tudo isso, se eles foram unidos apenas pelas circunstâncias do que enfrentam ou se realmente existe um sentimento ali. Eu amei a construção do romance pois não ocupa mais espaço do que deveria, mas ao mesmo tempo ocorre de forma natural e plausível. 

A evolução do personagem de Lina e também de seu irmão Jonas  é tocante de se acompanhar e ao mesmo tempo super dura. Jonas é só uma criança de onze anos, mas ele aos poucos deixa de ser aquele garotinho mimado para se tornar alguém franco e muito maduro, e a gente nem consegue se lembrar mais que ele é só um garotinho, porque de repente ele diz coisas acertadas demais, demonstra uma razão maior do que seria possível, mas aí a gente lembra de sua realidade desoladora, e entende que Jonas é a demonstração perfeita de quanto o ser humano se molda e muda, de acordo às situações que vivencia.

Os personagens secundários desse livro são impecáveis, como toda a trama construída por Ruta Sepetys. Temos aqueles que às vezes nos fazem torcer o nariz, por ter atitudes mais agressivas diante da realidade, outros despertam dúvidas. Mas o que mais me tocou na trama foi ver o quanto eram todos muito reais, e falíveis. Ninguém ali era perfeito, mas todos tinham seu brilho próprio, que os tornava fundamental para essa grande estória.

Tenho que falar da mãe de Lina, Elena Vilkas, meu personagem favorito. Elena é tão altruísta, positiva e corajosa que foi impossível não se sentir de certa forma cativada pela personagem. Ela passa por tantas coisas, e luta tanto por seus filhos, dá uma parte de si para que eles possam seguir adiante e é muito comovente sua luta e seu instinto de proteção e cuidado com seus filhos mesmo em meio ao caos em que estão lançados. Elena me comoveu e ganhou o meu carinho de um jeito que poucos personagens literários realmente conseguem. Eu a sentia como alguém real, e sofri por ela e os seus.

Eu estou apaixonada pela escrita de Ruta Sepetys. Ela consegue escrever um livro de fatos históricos sem tornar  a leitura cansativa. O cuidado da autora em retratar aquela realidade, todo o trabalho que certamente houve por trás da construção dessa estória é de se admirar e aplaudir. Ruta tem uma escrita precisa, dura, sem rodeios. E ao mesmo tempo calorosa, fluída, e muito envolvente. São poucos autores de livros históricos que conseguem retratar com tanta precisão um período sem perder o ritmo da estória e nem exagerar nas descrições. Ruta Sepetys consegue escrever com equilíbrio, transformando sua linda estória em praticamente uma homenagem à um povo que caiu mas soube se reeguer lindamente quando enfim recebeu a oportunidade.

Concluindo...

Cinzas na Neve  é um dos melhores livros históricos que já li. Com uma trama impecável e comovente, a escrita fluída de Ruta Sepetys me ganhou. É um livro importante, porque retrata um momento sombrio da Segunda Guerra que foi esquecido (e que deve ser relembrado!). É aquele tipo de livro que deveria ser adotado nas escolas, porque retrata com exatidão, habilidade e coragem um período vergonhoso da nossa história, e nos faz relembrar o valor inigualável da liberdade. 

"Não podia dormir. Não podia falar. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto machucado de meu pai encarando através das grades do vagão. "Seja valente, Lina", me disse. O cansaço e a dor cravavam cada fibra do meu corpo, e ainda assim eu não podia dormir. Minha mente soltava faíscas, como se tivesse sofrido um curto circuito e me lançava sem parar imagens de angústia, desespero e dor."



"Já se perguntaram alguma vez quanto vale uma vida humana? Aquela manhã, o preço da vida de meu irmão foi um relógio de bolso."

Trailer:




Ruta Sepetys é uma escritora americana de origem lituana nascida na cidade de Detroit, especializada em livros de ficção histórica. Seu pai foi um refugiado lituano e Ruta estudou Economia e Ciências no Hillsdale College. Depois de se formar, Ruta montou sua própria empresa de de representação em Los Angeles.
Com "Cinzas na Neve", seu primeiro romance, Ruta pôde dar voz às centenas de milhares de pessoas que, de alguma forma, foram atingidas pelo genocídio perpetrado por Stalin.
Atualmente Ruta vive com sua família no Tennessee.

Web Page Oficial: http://rutasepetys.com/

Twitter: Ruta Sepetys


Até a próxima, 


Ivy

11 comentarios:

  1. Oi, Ivy tudo bem? Este livro sempre me chamou atenção pela sua premissa, embora eu não o tenha lido, certamente é um livro que me agradará, pois gosto de livros históricos. Ótima resenha. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Oi Ivy! Eu sempre tive vontade de ler algo da autora, acredito que sejam mesmo histórias muito comoventes. No momento eu estou optando por histórias mais leves, mas num momento mais tranquilo, vou conferir esta obra. Dica anotada.
    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  3. Oi Ivy. Faz um tempo que não tô lendo mais gostei das indicações viu. Assim que eu puder já sei onde entrar haha beijos

    Segredosdamarii.blogspot.com

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  4. Oi, Ivy! Eu gosto bastante de livros históricos, de dramas, de enredos envolvendo a Segunda Guerra Mundial... Então já fiquei curiosa desde a sinopse. Eu não conhecia o livro nem havia ouvido falar da autora. Embora seja difícil de ler, é muito bom quando a escrita consegue passar toda as dores vivenciadas pelos personagens. E saber que alguns livros, como esse, são frutos de pesquisa me deixam assombrada com o tipo de coisa que acontecia de fato naquela época.

    Beijos, Entre Aspas

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  5. Olá, Ivy.
    Eu amo livros que falam sobre as grandes guerras porque ajuda o leitor a refletir e pensar muito nas próprias atitudes. Ainda não conhecia esse mas já vai para minha lista de futuras leituras. Futuras porque no momento estou evitando livros mais pesados hehe.

    Prefácio

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  6. Não lembro de já ter lido um livro do gênero, mas fiquei curiosa. O fato de ser bem realista deixa tudo bem mais verdadeiro né?

    Adorei o blog, já estou seguindo.

    Beijos

    Imersão Literária

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  7. Eu simplesmente amo livros que envolva fatos históricos, não importa o gênero. Mas quando são romances com drama nesse estilo, me apaixono total. Não conhecia o livro não mas fiquei bem curiosa já que tu mesma disse que a autora soube como trabalhar de forma tão boa todo o enredo em meio a acontecimentos tão duros.

    Abraço,
    Parágrafo Cult | @paragrafocult

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  8. Olá Ivy,

    Li esse livro quando era com outro título, excelente, resenhei o outro da autora Sal de Lágrimas e é igualmente ótimo.


    Beijos!

    http://devoradordeletras.blogspot.com/

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  9. Opa, tudo bem por aí?

    Eu adoro obras históricas e, apesar de não conhecer essa, me apaixonei de cara pela sinopse. Depois de ler a sua resenha, então, tive a certeza de que eu preciso realizar a leitura. Muito obrigado pela indicação, colocarei na minha wishlist, com certeza!

    Abraços!
    Acampamento da Leitura

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  10. Oi
    já tinha visto essa capa, mas nem sabia sobre o que falava super fiquei interessada, ainda mais por se aproximar da realidade, parece ter personagens bem interessantes.

    http://momentocrivelli.blogspot.com/

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  11. Oi, Ivy

    Muito se fala sobre Hitler e seus terrores e realmente uma parte da história fica esquecida!
    Este é um livro que me chamou a atenção quando a Arqueiro lançou, mas eu reluto porque histórias ambientadas em guerras não funcionam comigo justamente por deixar esse aperto no peito, sabe? Não duvido que seja uma leitura impactante e que os personagens sejam tão bons quanto você descreve, mas por enquanto eu ainda vou adiar. Quem sabe mais pra frente.

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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