(Review 390) - O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde - De repente, no último livro

9 de octubre de 2020

(Review 390) - O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

Título original: The picture of Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Editora: Autopublicado em 1891 (Inglaterra) / Penguin (Brasil)
Páginas: 264
Ano de Publicação: 1891 
Gênero: Clássico / Mistério
Valoração: 
Goodreads / Amazon / Skoob


Publicado em sua versão final em 1891, O retrato de Dorian Gray foi o primeiro sucesso literário de Oscar Wilde e, algo que se tornaria frequente durante a curta carreira do autor, motivo de grande escândalo. Exemplo extremo de um indivíduo que leva uma vida dupla, seu protagonista comete todo o tipo de atrocidade enquanto mantém uma aparência intocada de beleza e virtude. Seu segredo, porém, está materializado em um retrato guardado em uma sala trancada, que reflete fisicamente as deformações de seu caráter. Ao longo da década em que Wilde conviveria com doses idênticas de fama e infâmia, seu único romance foi usado como parâmetro tanto de sua capacidade artística como de sua total inadequação à sociedade em que vivia.

O retrato de Dorian Gray  é um clássico da literatura do século XIX que ajudou a coroar Oscar Wilde como um dos grandes nomes do século. Confesso que só li esse livro porque ele foi escolhido na Leitura Coletiva do Reino Literário, e que se não fosse por isso dificilmente o teria escolhido já que os clássicos e eu não temos muita afinidade, mas a experiência de ter lido a obra (embora de altos e baixos) no fim das contas até que resultou interessante.


A trama nos apresenta o jovem aristocrata Dorian Gray, um herdeiro bonito e extremamente intelectual, uma alma solitária que encontra no pintor Basil Hallward  os caminhos que vão marcar sua jornada. Basil possuí uma espécie de adoração, paixão e idolatria pelo Dorian e manifesta o melhor de sua arte quando decide pintar justamente o Dorian, usando-o como seu modelo pessoal e ícone. Através dos quadros de Basil, o rosto de Dorian se torna o rosto de jovens amantes, de grandes heróis e até de mitos como Narciso e Apolo, mas quando Basil decide pintar Dorian como ele realmente é, como Dorian mesmo sem personagens, algo estranho acontece. Dorian vê aquela imagen e no mesmo momento faz um desejo estranho: que ele pudesse trocar a juventude imutável daquele quadro pela brevidade da sua própria. 

O que parece apenas um desejo qualquer, começa a ganhar contornos macabros com o passar do tempo. 


Através do próprio Basil, Dorian Gray conhece o jovem Lord Henry Wotton, um tipo cínico e incrédulo que acredita que os prazeres sem limites são um dos impulsos da vida própria. A influência de Henry passa a ser tóxica e nefasta na vida de Dorian, e com o tempo Dorian é capaz de superar até mesmo seu mentor Henry em seus pecados, vaidades e segredos. 


Mas à cada pecado cometido por Dorian, sua aparência, pureza e beleza seguem imutáveis. O curioso é que a imagem no quadro começa a mudar. A boca que carregava leveza em seu sorriso, agora parece ter um riso macabro. Os olhos parecem estar mais cansados. As mãos parecem esconder os muitos crimes de Dorian. E quanto mais Dorian afunda e brinca com os limites da própria vida, mais o retrato no quadro parece carregar para si o fardo, enquanto Dorian mesmo desfruta de uma aparência impecável e imune ao passar dos anos. 


Mas qual é o segredo afinal de Dorian Gray e seu misterioso retrato? Será que algum dia o peso que o terrível retrato carrega irá passar para Dorian ou poderá ele, tal qual um semi-deus, desfrutar das virtudes da juventude e da beleza eternas?


Minha opinião:


É até complicado para mim definir se afinal gostei ou não desse livro. Foi uma experiência inusitada, única, mas até agora não tenho uma opinião concreta sobre se ler esse livro valeu ou não a pena.


O começo foi extremamente maçante. Eu não conseguia conectar com a escrita do Oscar Wilde, houve um capítulo que inclusive eu cheguei a pular algumas páginas porque achei que ele divagava demais e a trama só foi ganhando forma e se tornando interessante lá pela metade, quando o Dorian começa a enveredar por um caminho mais obscuro ao mesmo tempo em que se tortura o tempo inteiro enquanto encara seu próprio retrato e as mutações que este vai sofrendo com cada ato ruim do Dorian. 


O que eu gostei bastante foi a sociedade apresentada por Wilde, bem descrita pelo autor, mostra uma Londres bem mais cinza, descarada e cheia de segredos do que nos romances de época comuns que geralmente encontramos. A maneira como Wilde descreve seus personagens, os diálogos mantidos são carregados de um tom bem crítico. Aliás, o livro inteiro é uma tremenda crítica à certos valores e aí está seu grande charme. Wilde nos mostra abertamente os efeitos nefastos do culto à imagem, é uma crítica à vaidade e aos padrões de beleza tão idealizados que tornam seus portadores pessoas quase acima do bem ou do mal, elevados à um status de superioridade diante dos demais mortais. Esse status permite que essas pessoas saíssem impunes, como Dorian Gray demonstra quando nem mesmo através de seus atos mais vis ele jamais chegava a ser rejeitado por completo, e sempre encontrava mais onde se deleitar, desfrutando da impunidade ganhada por sua aparência impecável. 


Infelizmente li a versão comum do livro, sei que alguns trechos dele foram censurados e creio que se tivesse lido todas as partes sem censura talvez a experiência tivesse sido mais completa, porque embora saibamos da metamorfose de Dorian, tudo acontece rápido, pouco é explicado e acaba tudo ficando mais para a imaginação do leitor. Uma pena porque se o leitor realmente soubesse de todos os caminhos do Dorian, creio que pelo menos eu teria sentido mais o personagem, teria "conhecido" Dorian bem melhor, e não de maneira superficial.


Os personagens são interessantes e eu gostei porque embora tenham se apresentado de início bem inofensivos, todos vão passando por mudanças, se tornando mais ácidos. Dorian Gray por exemplo é um misto de mau caratismo e dor, mas no início ele era só um jovem tímido que se consumiu por sua enorme beleza, ele é um personagem atormentado, que quer descobrir tudo mas ao mesmo se angustia  e se deleita com o que faz. Temos seu grande amigo Basil que é um personagem bem morno, que apresenta bem o estilo mais pacato e mais centrado de um artista, focado em seus ideais mais nobres e obediente das normas. Por essa figura mais pacata, Basil é julgado erroneamente tanto por Dorian quanto por Henry, este último aliás se tornou um personagem que passei a considerar como o grande vilão da estória. Henry que estimula Dorian a desafiar os limites e as convenções sociais. Henry é aquela figura que muito fala, e no seu falar exerce influência, mas ele mesmo não faz tudo o que fala, embora se divirta vendo os outros cederem e se deixarem guiar por suas idéias. Henry é irônico e em certo ponto um pouco sádico também, e eu achei ele um personagem bem intrigante, ainda que de caráter bem repugnante.


Temos outros vários secundários que aparecem pouco, apenas para dar 'testemunho' da decadência moral de Dorian Gray.


Honestamente, embora os personagens mais importantes fossem diferentes do que costumo ler, não consegui sentir apego ou conexão com ninguém. Ler O Retrato de Dorian Gray acabou por ser uma experiência inédita pra mim, mas ao mesmo tempo não tão envolvente quanto gostaria.


Concluindo...

O que eu gostei:


➽ As descrições de Oscar Wilde: ele nos apresenta uma sociedade londrina bem realista, cheia de acidez, que desafia os conceitos da moralidade ao mesmo tempo em que ainda se preocupa com muitas convenções sociais. 


➽ As caracterizações de cada personagem de importância, a construção das personalidade de Henry, Dorian e Basil são interessantes, assim como a mudança que cada um experimenta com o passar dos anos.


➽ A maneira crítica e inteligente com que o autor passa sua mensagem: uma crítica atual e veemente sobre os excessos e o culto à beleza e à juventude.


➽ O mistério ao redor da relação entre Dorian e seu retrato.



O que eu não gostei:


➽ O autor divaga demais, há capítulos inteiros onde o autor conduz um verdadeiro monólogo cheio de exemplos para alcançar uma conclusão, isso me cansou horrores.


➽ O começo é extremamente enfadonho.


➽ A versão censurada (a única encontrada facilmente hoje em dia) é quase incompleta, não permite que o leitor possa entender com profundidade todos os atos de Dorian Gray até sua decadência e nem os efeitos causados por tudo isso.

"Sim, Senhor Gray, os deuses foram bondosos com o senhor. Mas o que os deuses dão, eles logo tiram. O senhor tem apenas poucos anos para viver de verdade, com perfeição e plenitude. Quando a juventude for embora, a sua beleza irá com ela, e então o senhor descobrirá subitamente que não lhe restam triunfos, ou terá de se contentar com os triunfos medíocres que a memória do passado tornará mais amargos que as derrotas."



"Mas e o quadro? O que deveria achar daquilo? Ele continha o segredo de sua vida e contava sua história. Ele havia lhe ensinado a amar a própria beleza. Será que o ensinaria a detestar a própria alma? Voltaria a olhar para ele de novo?"

Oscar Wilde nasceu em 16 de outubro de 1854 em Dublin, Irlanda. Filho de William Robert Wilde, cirurgião-oculista que servia à rainha. Sua mãe, Jane Speranza Francesca Wilde, escrevia versos irlandeses patrióticos com o pseudônimo de Speranza.

Foi educado no Trinity College, Dublin e mais tarde em Oxford. Lá ele recebe a influência de Walter Pater e da doutrina da "arte pela arte". Em 1879, vai para Londres, para estabelecer-se como líder do "movimento estético". Em 1881 é publicada uma coletânea de seus poemas. Em 1882, sem dinheiro, aceita participar de um ano de viagens entre USA e Canadá. Essa viagem lhe rendeu fama e fortuna.

Em 1884, casa-se com a bela Constance Lloyd. Com a publicação de "Retrato de Dorian Gray", sua carreira literária deslancha. Oscar e Constance tinham 2 filhos e para eles escreveu "O Príncipe Feliz", "O Gigante egoísta" e "O Rouxinol e a Rosa".

Teve uma vida extravagante, o que o teria levado a ser preso em 1895. Sua pena, de dois anos de prisão, incluía trabalhos forçados.
Oscar Wilde teria sido acusado de cometer atos imorais com um rapaz, que se suspeitava que fosse seu amante. 

Após deixar a prisão em 1897 foi viver em Paris. Perdeu a fama e passou a escrever pouco. Lá, usava o pseudônimo de Sebastian Melmouth.

Wilde, que tinha um talento brilhante, bebia demais e sofria de sífilis, acabou morrendo em Paris, no ano de 1900, completamente pobre, vítima da meningite. Ele tinha 46 anos.






Até a próxima, 



Ivy

11 comentarios:

  1. Olá,
    Confesso que tenho vontade de conhecer essa história, mas acho que prefiro com a versão sem censura, para ver se consigo me adaptar mais facilmente como você comentou. É super estranho quando não conseguimos confirmar com certeza o que sentimos do livro, né? Haha
    Fico feliz que mesmo assim você tenha achado pontos positivos.

    Beijos, Fantasma Literário

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  2. Oi, Ivy como vai? Que pena que você não tenha conseguido se conectar com a obra. De todo modo ainda bem que conseguiste encontrar pontos positivos no livro, sendo assim não foi um desperdício de leitura creio eu. Muito boa sua resenha. Adorei. Abraço!



    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  3. Oie,
    Que pena que o livro não foi o que esperava. Sempre tive curiosidade em ler este livro.

    Beijinhos
    https://tecendoaliteratura.blogspot.com

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  4. Oi Ivy,
    Esse é um clássico que eu tenho muita vontade de ler!
    O começo ser chato e o autor divagar, confesso que já esperava, porque os clássicos são bastante entediantes para mim (rs), mas considero uma leitura obrigatória para eu ter noção do que estou falando antes de reclamar, sabe? kkkkk
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  5. Ivy, eu li uma outra edição mas tambem fiquei com a mesma sensação que voce: nao sei se gostei ou nao?
    se deverai ter lido ou nao?
    E a falta de empatia do protagonista nao me deixa gostar dele, mas é interessante como um texto antigo pode fazer tao jus À sociedade hoje, né?

    Bjs!
    Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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  6. Oi, Ivy! Tudo bom?
    Essa obra tá na listinha de clássicos que preciso ler durante a vida, só não sei quando UHASUHASUHASUHUHAS já tive contato com Dorian Gray em várias adaptações e releituras, só nunca peguei o original pra ler. Quero muito por curiosidade!
    Adorei a resenha.

    Beijos, Nizz.
    www.queriaestarlendo.com.br

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  7. Olá, Ivy.
    Eu até tento gostar de clássicos, mas são tão chatos hehe. Eu li esse na época da escola onde lia tudo que tinha por lá hehe, e na época até que gostei. Nem sei se foi essa versão censurada ou não. Mas acredito que se lesse hoje, sofreria para terminar.

    Prefácio

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  8. Acho que li esse livro uns 10 anos atrás e na época achei ele chato e enfadonho kkkk
    Beijos
    Balaio de Babados

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  9. OI Ivy! Eu já li e não foi uma livro que me cativou, na verdade este tipo de obra não é para mim. Apesar de ser um clássico, não entra nos meus favoritos. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  10. Olá, prazer conhecer seu blog!

    Eu li esse livro só por conta de um projeto, #semestreclassico, que eu criei para diversificar mais minhas leituras. Mas tenho que dizer também que ainda não sei se gostei ou não. E fiquei surpresa de ter pessoas no instagram me contando que esse é o livro favorito delas.

    Não consegui até agora classificar em estrelas o quanto eu gostei desse livro.

    Apesar do Caos

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    Respuestas
    1. Nossa, eu também vi pessoas que diziam amar esse livro, fãs mesmo e eu penso que sei lá, realmente gostos diferem bastante e talvez quem já está acostumado com os clássicos tenha uma visão diferente da nossa, porque já se familiarizou com essa narrativa mais cheia de divagações e rebuscada. Eu dei 3 estrelas porque pra mim é unm meio termo sabe? Não amei e nem odiei, mas uma coisa tenho certeza: não tornaria a reler não.

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